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#cutetalk com Hiro Kawahara (sim, o ilustrador das lâminas do Mc Donald’s)

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O artista por trás das fofíssimas lâminas das bandejas do Mc Donald’s fala sobre seu trabalho, paixões e o que o inspira. Uma verdadeira aula. Vem ver!

Uma das maiores alegrias de escrever pro Cutedrop é poder entrevistar pessoas que admiro. Hiro, que é genial, não podia deixar de passar por aqui.

Seu trabalho mais conhecido é o das lâminas do Mc Donald’s (aquela toalhinha que vem na sua bandeja embaixo do lanche), que ele mesmo cria, escreve e ilustra. O Cutedrop falou sobre isso em 2011 (leia “O traço por trás das bandejas do Mc Donald’s“).

Paulista, nascido em Mogi das Cruzes, Hiro decidiu tornar-se ilustrador profissional autônomo em 2005, após sua experiência como diretor de arte em uma agência de publicidade. Trabalha também para diversas empresas e agências, especializando-se em criação e desenvolvimento de personagens publicitários e em ilustração infanto-juvenil.

Nessa entrevista ele conta um pouco sobre sua infância, fala sobre quem o inspira e dá dicas de livros.

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Você era uma criança muito criativa, que sempre gostou de desenhar? Como surgiu seu amor pela ilustração?

“Desisti de ser diretor de arte há 8 anos atrás para virar ilustrador, mas não tinha muita orientação para isso, foi um processo do tipo salto de fé”.

Toda criança gosta de desenhar, a diferença é que alguns param quando crescem. O ato de gostar de desenhar foi um caso intrauterino. Agora, a paixão pela ilustração veio em dois momentos: o primeiro quando desisti de ser diretor de arte há 8 anos atrás para virar ilustrador, mas não tinha muita orientação para isso, foi um processo do tipo “salto de fé”.

Foi quando conheci o Bistecão Ilustrado, um encontro periódico entre ilustradores, que acontece até hoje, em São Paulo. Foi fascínio e paixão a primeira vista, e entendi que tinha acertado na escolha e estava entre caras que poderia chamar de companheiros e ídolos, como o Benício, que ilustrou os cartazes dos filmes dos Trapalhões, e o Kako, o criador do evento.

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A segunda vez foi há quarto anos atrás quando mudei todos os conceitos que tinha sobre  ilustração em uma viagem para Nova York, onde defini a linha e o estilo de trabalho, conhecendo novamente ídolos que me inspiraram, como Scott C, Alberto Ruiz e Brad Holland.

Vi a importância dos sketches, dos estudos e gestual no meu trabalho, que ficou muito mais fluido e carismático.

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Seu trabalho mais conhecido são as lâminas do Mc Donald’s. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a empresa?

“Vi que a lâmina era um espaço mal aproveitado e decidi por conta própria fazer uma experiência”.

Foi há 19 anos atrás, quando fui contratado pela Taterka Comunicações, a agência que tem a conta do McDonald’s até hoje, como diretor de arte. A lâmina de bandeja como conhecemos hoje não existia na época, e eu havia sido contratado para fazer campanhas de lançamentos de produtos e institucionais. Após um ano, vi que a lâmina era um espaço mal aproveitado e decidi por conta própria fazer uma experiência. Com a ajuda de um redator, Toninho Neto, e um grande ilustrador, Adelmo Barreira, criei a primeira lâmina de bandeja, no risco, e apresentei à diretora de marketing, Tania Kulb.

Foi graças à aprovação dela e do apoio do dono da agência, o Dodi Taterka, que recebi o sinal verde para tocar esse projeto. No início, eu só criava e escrevia e o Adelmo ilustrava. Após um ano, por motivos pessoais, ele não pôde mais ilustrar para nós e decidi então ilustrar o que eu escrevia, porque o processo era mais rápido.

Foi graças ao sucesso das lâminas que eu recebi o departamento infantil do McDonald’s, que tinha como carro chefe o Mc Lanche Feliz, para ser o criativo responsável pelo design das caixinhas e dos conceitos das campanhas.

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Como é o processo criativo das lâminas?  Todas ideias surgem a partir de você?

“Tenho toda a liberdade de trabalhar como eu quiser com as ilustrações”.

Antigamente era eu quem definia os temas, tirando um ou outro institucional. Hoje, devido à grande exposição das lâminas – que tem uma tiragem de 12 a 14 milhões por modelo, sendo impressas até agora cerca de 3,5 bilhões das que eu criei e ilustrei – um departamento específico no McDonald’s cuida dos temas e me passa o briefing.

A liberdade nos textos não é a mesma de antes, mas tenho toda a liberdade de trabalhar como eu quiser com as ilustrações, contanto que não mexa em vespeiros óbvios, como religião, política e sexo (afinal, é um produto corporativo, não um produto editorial ou jornalístico). Sou eu quem decido e faço ainda os textos, a diagramação, o estilo e o conteúdo dos desenhos.

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Existe algum lado negativo nesse trabalho?

Geralmente o maior problema nas lâminas de bandeja são os prazos, geralmente muito curtos para realizar um trabalho complexo – tenho cerca de 10 dias pra entregar tudo finalizado. Como as fontes das informações que saem tem que ser oficiais ou com credibilidade legal, não sobra espaço para brincadeiras, informações bizarras ou suposições, que geralmente são muito mais curiosas e divertidas.

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Seus desenhos saem somente nas bandejas do Brasil?

Sim, a lâmina de bandeja do Brasil é única. A maioria ainda possui propagandas de produtos ou promoções de parceiros, como acontece com as lâminas sobre Monopoly no Brasil, que são criadas dentro da própria agência e não tenho participação.

Mas elas também podem ser utilizadas dentro de toda a América Latina e aparecer na Argentina, Uruguai, Chile, Guatemala, etc.

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De todos os desenhos que você já fez, qual o seu preferido? 

“Tento praticar nos meus trabalhos pessoais o conceito oriental de desapego de resultado. Daqui a uns cinco anos devo ficar bom nisso”.

Eu ainda não tenho um desenho preferido. O que eu faço hoje é melhor do que ontem e é pior do que amanhã. Sei que esse “desenho preferido” vai ser algo autoral, vai ter algum significado muito importante pra mim, mesmo sendo um rabisco mal acabado.

Tenho gostado muito de fazer xilogravuras, mais pelo desafio de fazer algo diferente e pela calma em raspar madeira, mas percebo que ainda tenho esses conceitos comerciais muito fortes em mim. Tento praticar nos meus trabalhos pessoais o conceito oriental de desapego de resultado. Daqui a uns cinco anos devo ficar bom nisso.

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E qual foi o mais difícil de ser finalizado?

“Atravessei muitas noites sem dormir e um computador com um processador quase derretendo”.

A ilustração mais difícil de ser realizada foi um trabalho que fiz para a Fiat no ano passado. Foram 4 ilustrações muito complexas, no estilo “Onde Está Wally” e que imaginei que, por ser uma campanha impressa, não seria necessário um acabamento impecável dos detalhes, por causa da redução. Mas elas foram usadas também em um jogo online onde o cliente poderia dar um zoom para procurar os ursinhos escondidos. Ou seja, tudo tinha que ter um acabamento impecável.

Cada arquivo no final ficou com 4×2 metros no Photoshop, com milhares de elementos e mais de 70 layers em cada arquivo, que ficaram com um tamanho entre 4 a 6 Gb. O prazo era apertado e atravessei muitas noites sem dormir e um computador com um processador quase derretendo.

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Seu traço é muito específico, fofo, redondinho. Na área da ilustração, quem são seus ídolos?

Meus ídolos são aqueles que me inspiram a desenhar melhor, dentro desse estilo, e outros, pela história de vida. A lista é grande porque encontro praticamente um cara sensacional que serve como ídolo por semana.

Tem os patronos, que são os inspiradores morais da minha carreira: Benício, Alex Toth (criou concepts de Space Ghost e Johnny Quest), Al Hirschfeld  (talvez o maior caricaturista de todos os tempos) e Hayao Miyazaki (Totoro, Kiki, Ponyo).

Além deles devo mencionar os que influenciaram minha maneira de desenhar: Glenn Keane, animador que criou conceitualmente a Pequena Sereia, Rapunzel, Tarzan. Vera Brosgol, que inspirou as expressões faciais que uso até hoje. Brittney Lee, que me inspira com a leveza dos seus desenhos.

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Dentro da lista dos ilustradores inspiradores, muitos trabalham como concept artists de estúdios de animação, como a Pixar e a Dreamworks, são autores ou quadrinistas: Carter Goodrich, Mike Yamada, Arthur de Pins, Gustavo Duarte, Bill Presing, Chris Bachalo, Tom Moore, Matias Adolfsson, Chris Sanders, Daisuke Tsutsumi, Ronnie Del Carmen, entre outros.

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O Cutedrop é um site sobre design, publicidade e inspirações. Poderia indicar um site ou um livro que você considera importantes?

Pra quem gosta de estudar o desenvolvimento de personagens, e se inspirar com sketches e estudos de animação, indico o blog Concep Art (http://theconceptartblog.com).Dá pra ficar horas só rolando entre as páginas.
Eu sempre indico o livro do italiano Gianni Rodari – Gramática da Fantasia – como fonte inspiradora para quem quiser trabalhar e entender o universo infantil. Suas teorias são válidas até hoje e ele escreve de uma maneira tão leve e divertida que nem parece um livro pedagógico.
Para quem quiser estudar como deixar um desenho mais fluido e natural, aconselho os dois livros da série “Dando Vida a seus Desenhos”, de Walt Stachfield. Ele dava aulas de desenho gestual para os ilustradores da Disney e seus alunos compilaram suas aulas nos livros.
Indico também o romance “As incríveis aventuras de Kavalier e Clay”, de Michael Chabon, que ganhou o Pullitzer de ficção em 2001. Para quem gosta da era de ouro de quadrinhos, é um romance apaixonante que dá pra desenhar cada cena na sua cabeça.

Na estante do Hiro
Na estante do Hiro

Confira mais trabalhos de Hiro:

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Gostou? Para saber mais sobre o trabalho de Hiro, acesse seu site.

Clarissa Cavalcante

Tem 24 anos e é formada em Estudos de Mídia pela UFF. Produtora de conteúdo, social media freelancer e apaixonada por cinema, escreve aqui no Cutedrop sobre novidades e inspirações do mundo do Design.

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